Num contexto aproximado de cerca de 1600 anos, envolvendo mais de quarenta autores, dos mais diversos lugares, a Bíblia, progressivamente, foi sendo revelada. No entanto, em toda a sua compilação, do Gênesis até o Apocalipse, envolvendo todos os sessenta e seis livros, em sua totalidade, não há discrepâncias nem contradições. Pelo contrário, todos os sessenta e seis livros se completam entre si, formando um único livro coeso, “uma mensagem dinâmica dos tratos de Deus com a humanidade[1]”.

A Bíblia é um livro inerrante, autoritário e verdadeiro. Afirmou o apóstolo Paulo: “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16-17); e também o apóstolo Pedro: “porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21). “Outro aspecto único e maravilhoso da Bíblia é o seu cristocentrismo. Do começo ao fim, tanto no A.T. como no N.T., a Bíblia é um testamento de Jesus Cristo, o ‘Filho do Homem’ e o Senhor da glória[2]”.

Diante de fatos tão claros, a respeito da Bíblia, que se revela um livro com autoridade divina para o pensamento e para a vida do crente este texto propõe uma reflexão sobre os valores da exposição cristocêntrica na prática ministerial. De fato, faz-se necessário resgatar esse princípio fundamental da fé dos profetas e dos apóstolos, que infelizmente, pela falta de piedade de muitos que compõe a liderança eclesiástica pós-moderna, vem se perdendo no tempo. É necessário olhar para as Escrituras com olhos mais atentos, com piedade, com excelência, com empenho, em busca de um conhecimento mais profundo e real da Escritura, para que, em virtude dessa dedicação, as ovelhas do rebanho do pastoreio do Senhor Jesus (Sl 23; Jo 10) recebam alimento sólido (Hb 5.12-14).

Numa época tão hostil à sã doutrina, em que muitos líderes evangélicos estão perdidos no pragmatismo religioso, a exposição bíblica e cristocêntrica é a única forma de solidificar o cristianismo (evangélico) na Pedra Angular (1Pe 2.6,7). Assim, espera-se que este texto ajude a todos os que têm a responsabilidade e o privilégio de serem pregadores da Palavra de Deus: pastores, seminaristas, evangelistas e todos aqueles que pensam um dia dedicar-se a esse ministério.

1. Autoridade da exposição

Sem dúvida alguma, a autoridade da exposição está intimamente ligada à autoridade da inspiração bíblica. Disse John Stott: “o poder transformador da Palavra depende do reconhecimento da autoridade divina […] A inspiração divina de toda a Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse, significa que Deus tem falado clara e infalivelmente[3]”. Neste sentido, o que está em pauta é a realidade atual de uma época hostil à autoridade, onde as pessoas questionam sobre quem tem o direito de determinar o que elas devem fazer e ser. Mais triste ainda é perceber as tendências da exposição pós-moderna, que excluem a autoridade da Bíblia e colocam as necessidades do homem, a sofisticação e os modelos empresariais como dogmas de um ministério bem-sucedido. Alguém já disse: “a qualidade do cristianismo depende, em grande medida, do valor e autoridade conferidos à Palavra de Deus”; e também, “desvirtuamentos éticos, morais e doutrinários começam pela diminuição do valor e autoridade das escrituras”.

Para entender a autoridade da exposição é imprescindível que se examine a autoridade da inspiração bíblica. Entender que é Deus, através das Escrituras, quem fala ao homem com o fim de transformá-lo.

A Bíblia é sempre autoridade final numa exposição. Precisamos ter coração disposto “para buscar a Lei do SENHOR, e para cumprir, e para ensinar […] os seus estatutos e os seus juízos” (Ed 7.10), assim como ter “prazer na lei do SENHOR, e na sua lei meditar de dia e de noite.” (Sl 1.2).

Segundo Grudem “é importante perceber que a forma final em que as Escrituras permanecem como autoridade é a forma escrita. Isso é importante porque às vezes as pessoas (intencionalmente ou não) tentam substituir as palavras escritas da Escritura por outro padrão final. Não devemos jamais permitir que contradigam ou coloquem em dúvida a exatidão de qualquer palavra da Escritura[4]”. Com o mesmo pensamento Chapell defende a autoridade da exposição: “quando pregadores tratam a Bíblia como a própria Palavra de Deus, as questões acerca das coisas que temos o direito de dizer desaparecem. Deus pode dizer ao Seu povo o que eles devem fazer e no que devem crer, e ele o faz. A Escritura constrange os pregadores a se certificarem de que as outras pessoas entendam o que Deus diz[5]”.

Não há como fugir da autoridade bíblica na exposição como fator primordial para uma exposição realmente eficaz, no seu objetivo de atingir e transformar o coração endurecido do homem. A Bíblia é a expressão da vontade de Deus, é ela quem define no que devemos crer e como devemos nos comportar.

Se o pregador tiver consciência da sua missão, da importância, do poder e do efeito que a exposição pode causar nos seus ouvintes, deverá dedicar um bom tempo a sua preparação individual. Isso significa uma seriedade muito grande no que diz respeito ao preparo para a exposição bíblica.

2. Propósito da exposição

Segundo Liefelde, o propósito da exposição “é declarar a vontade de Deus para Seu povo, Sua igreja […] motivar em questões como fé, obediência e crescimento espiritual […] deve ser adoração a Deus e a exaltação ao Seu nome[6]”. Uma clara ênfase que se percebe nas definições de Liefelde é que o foco está sempre direcionado para as coisas do alto, ao contrário do que se percebe em muitos pregadores do presente século. O propósito da exposição deve ser o mandamento de Deus, realizado no homem para edificação do corpo de Cristo, a Igreja.

Robinson diz que “o expositor deve saber registrar em palavras que qualidade de vida ou que obras devem resultar da pregação do sermão e do ouvir do mesmo. Cumprimos nosso propósito, segundo Paulo contou a Timóteo, por meio de (1) ensinar uma doutrina, (2) refutar algum erro na crença ou na ação, (3) corrigir aquilo que está errado, e (4) instruir as pessoas a enfrentarem corretamente a vida[7]”.

Em suma, o propósito da pregação é realizar a vontade de Deus através de, e no homem. E o papel do expositor é ser um “homem de Deus […] perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” (2Tm 3.17), em obediência à vocação que Deus lhe deu.

3. Prioridade textual

Existem duas preposições gregas que definem bem esse princípio de prioridade textual. A preposição “eis” que significa “para dentro”, “para o meio de”; e a preposição “ek”, que significa “de dentro para fora”. Ou seja, numa a ideia principal é do autor e depois inserida no texto, noutra a ideia principal sai do texto e é expressa ao ouvinte. O papel do pregador não é criar uma mensagem para os ouvintes, mas expor para os ouvintes a mensagem já revelada de Deus.

É necessário entender que o texto por si só já é a mensagem, com isso o pregador é apenas o expositor. Chapell faz a mesma consideração ao dizer: “muitas vezes almejamos começar a preparação do sermão pela procura da afirmação bíblica acerca de um interesse particular ou tópico. Além disso, o próprio texto é a fonte das verdades que, por fim, apresentamos. No púlpito somos expositores, não autores. O sermão elucida o que a Bíblia afirma[8]”. O que Chapell está dizendo é que o pregador tem que priorizar a escolha do texto, e depois entender o que este texto ensina, e então pregar este ensino. O pregador não pode deixar de pensar que ele é um expositor. Ser expositor é falar de algo já existente. É necessário enfatizar que “toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino…” (2Tm 3.16), mas é responsabilidade do pregador escolher o texto a ser exposto. Concluindo, o “pensamento do escritor bíblico determina a substância de um sermão expositivo[9]”.

Conclusão

Nesta primeira parte nos atemos apenas em significar o valor da exposição, no próximo texto, falaremos sobre alguns exemplos bíblicos e históricos de exposição, e posteriormente um último texto apresentando o significado e os objetivos da exposição cristocêntrica. Que este texto tenha contribuído e pelo menos feito você refletir sobre o valor da exposição bíblica e cristocêntrica.


[1] MCDOWELL, Josh. Josh McDowell Responde. Tradução Yolanda M. Krievin. São Paulo: Editora Candeia, 2001, p.15

[2] Idem, p.23

[3] SHEDD, P. Russel. Palavra Viva: Extraindo e Expondo a Mensagem. São Paulo: Vida Nova, 2000, p.13

[4] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática – Atual e Exaustiva. Tradução Norio Yamakami, Lucy Yamakami, Luiz A. T. Sayão, Eduardo Pereira e Ferreira. São Paulo: Vida Nova, 1999, p.55

[5] CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica. Tradução Oadi Salum. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002, p24

[6] LIEFELD, L. Walter. Exposição do Novo Testamento. Tradução Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 1985, p.21-22

[7] ROBINSON, W. Haddon. A Pregação Bíblica. Tradução Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 1983, p.74

[8] CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica. Tradução Oadi Salum. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002, p.55

[9] ROBINSON, W. Haddon. A Pregação Bíblica. Tradução Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 1983, p.15