Você já se deparou com as seguintes afirmações: “A cultura judaico-cristã oprime a mulher”, “A mulher não tem valor algum na cultura judaico-cristã”, “Especialmente no Antigo Testamento, a mulher era discriminada e injustiçada”. Mas, estariam corretas tais afirmações? Seriam elas resultado de um estudo e exegese corretos do que a Bíblia diz?

                   Neste artigo abordarei o assunto tomando como base a história bíblica de Rute. Nessa bela história temos tantos elementos da cultura judaica do Antigo Testamento que além de mostrar como a mulher é dignificada naquela cultura, como também apontam para a pessoa de Cristo, de quem o apóstolo Paulo disse que “Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste” (Colossenses 1.17), ou seja, tudo o que está registrado no Antigo Testamento aponta para a pessoa e obra de Cristo, e sem Ele, não somente o Antigo Testamento fica incompreensível, como toda a existência humana e a História perdem seu sentido; sem Ele nada existiria.

                   Antes de nos aprofundarmos no nosso tema, faz-se necessário destacarmos um ponto importante: o surgimento da cultura judaica.

  1. O que veio primeiro: a cultura judaica ou o Antigo Testamento?

                   A cultura judaica é fruto da revelação de Deus no Antigo Testamento, e não, como afirmam os sociólogos e afins, o Antigo Testamento (e a Bíblia toda) é fruto da cultura judaica. Isso soa contraditório especialmente para as mentes dominadas pela Sociologia, Antropologia e Psicologia. Para estes, a Bíblia não passa de um registro de mitos e crendicessem muita credibilidade histórica. E embora seja verdade que foi somente depois da invenção da escrita que os registros passaram a existir, e por isso mesmo, para que os judeus tivessem um livro sagrado (neste caso, os livros do Antigo Testamento) teriam que ter primeiramente, uma cultura que lhes desse suporte para uma língua falada e escrita. Contudo, chamo a sua atenção para o fato de que não estou embasando minha afirmação com base nos escritos, mas, na revelação de Deus, a qual foi transmitida por meio daquilo que os exegetas e historiadores bíblicos chamam de “tradição oral”.

                   O povo hebreu[1] surge na História como um povo no sentido de nação organizada e regida por leis somente depois que Moisés o libertou do julgo do Egito por volta de 1450 a.C. Os descendentes de Jacó (Israel) foram escravos no Egito por mais de 400 anos até que Deus, por meio de Moisés os libertou. Nos livros veterotestamentários de Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio temos os registros da formação do povo hebreu como Nação de Israel, com todos os seus sistemas de leis civis, cerimoniais e morais (estas últimas são os Dez Mandamentos). A revelação de Deus ao Seu povo é que deu ao mesmo as leis para, por elas, este ser regido. Moisés foi o primeiro a registrar o que ouvira de seus ancestrais (tradição oral); e assim surgiu o livro de Gênesis. Além disso, Deus também revelou-Se pessoalmente a Moisés. Dessa forma fica evidente que toda a cultura judaica do Antigo Testamento é fruto deste em sua forma “falada” (revelada por Deus) e, posteriormente, essa revelação falada foi registrada por meio da escrita.

                   Talvez você esteja questionando o fato de que a revelação de Deus esteja no campo da fé não tendo nada de científico, e, por isso, não tem crédito algum. Sim, é verdade. Não há nada científico aqui, mas, somente metafísico, ou seja, no campo da fé. Contudo, você não pode negar que a fé é de longe, o elemento mais forte impulsionando a humanidade, e foi justamente pela fé que os hebreus viveram e aplicaram as leis recebidas de Moisés porque criam que Moisés as recebera de Deus – e as vezes que assim não fizeram, desobedeceram a Deus cometendo pecados aos quais a Bíblia registra para nos mostrar como o homem ao desobedecer a Deus é capaz de cometer abusos e absurdos, como por exemplo, os que são cometidos contra a mulher.

                   Isto posto, vamos para o livro de Rute e vejamos ali elementos da cultura veterotestamentária que encerram qualquer acusação infame de machismo e misoginia nas páginas do Antigo Testamento.

  • Rute: a história de uma conversão, compromisso e dignidade

                   Por volta de 1350 a.C., contemporânea ao livro de Juízes, é a história de Rute (Rt 1.1). Elimeleque que era da tribo de Judá, casada com Noemi, foram habitar na terra de Moabe, juntamente com seus dois filhos, Malom e Quiliom. Elimeleque veio a falecer (Rt 1.3). Seus filhos se casaram com as mulheres moabitas, Quiliom casou-se com Orfa e Malom com Rute, e após quase dez anos, eles faleceram também (Rt 1.5) ficando viúvas as três.  Noemi decidiu voltar para Belém, sua terra, liberando as duas noras de qualquer compromisso para que pudessem recomeçar casando-se novamente. Orfa, despediu-se da sogra e da concunhada; Rute, por sua vez, decidiu acompanhar sua sogra, e com as célebres palavras demonstrou sua conversão ao Deus de Israel: “…aonde quer que fores irei eu, e onde quer que pousares ali pousarei; o teu povo será o meu povo, o teu Deus será o meu Deus ” (Rt. 1.16). Assim, elas partiram para Belém.

                   Havia leis naqueles tempos para amparar as viúvas[2]. Duas dessas leis eram a do levirato e a do resgate. A lei do levirato implicava em que se um homem viesse a morrer não tendo nenhum filho com sua esposa, esta deveria ser dada ao irmão do falecido tivesse um filho com ela para que (1) fosse suscitada descendência ao falecido e seu nome não caísse no esquecimento, e (2) este filho amparasse a viúva quando esta estivesse idosa. Já a lei do resgate implicava em que, não havendo um irmão do falecido (como era o caso de Rute), um parente mais próximo deveria casar-se com ela e dar-lhe filhos e proventos para que ela não ficasse desamparada. Rute se enquadrou na lei do resgate.

                   Havia um parente de Malom que deveria casar-se com Rute e assumir o direito sobre as terras que pertenciam à família dela. Mas, este homem não quis resgatá-la, ficando assim para Boaz, outro parente de Elimeleque, o direito e o dever de assumir Rute como esposa, o que ele fez com muita alegria, prazer e amor. E Assim, Boaz deu a Rute a oportunidade de ser mãe, e em sua linhagem, reis importantes como o rei Davi, e o mais ilustre de todos, o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, Jesus Cristo (Mt 1.5).

                   Quero chamar a sua atenção para o cuidado que Deus teve com Rute. Ela era uma estrangeira que foi acolhida no povo de Deus e recebeu cuidado e proteção. No momento em que ela se dispôs a servir a Deus, recebeu os cuidados que as filhas de Israel recebiam. Enquanto, que, em outras culturas, mulheres nas condições de viuvez e sem filhos, tornavam-se pedintes, ou prostitutas ou escravas.

                   A história de Rute aponta para a história da Igreja de Cristo, pois, assim como Boaz resgatou Rute da calamidade e sofrimento, Cristo nos resgatou das trevas, do pecado e da condenação; assim como Boaz colocou seu nome sobre Rute e lhe deu dignidade, muito mais Cristo fez por nós colocando sobre nós o Seu nome e nos dando a maior de todas as honras: sermos filhos de Deus.

                   Então, da próxima vez que você ouvir uma acusação tão esdrúxula quanto essa de que a Bíblia incita a misoginia, mostre a esse pessoa a história de Rute.


[1] A designação “judeus” aparece somente em 2Reis 16.6, por volta do ano 742 a.C. Antes disso, o povo era conhecido como “hebreus”, ou “israelitas”.

[2] Para um estudo mais aprofundado, sugerimos a leitura do verbete “Viúva”, na Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, de Russel N. Champlim, 2006, vol. 6 – Editora Hagnos.


Veja o livro: As Boas Novas Em Rute.

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