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O livro bíblico do Evangelho de Mateus apresenta uma estrutura montada em torno de cinco discursos de Jesus. O primeiro e mais conhecido deles é o chamado Sermão do Monte, registrado no trecho que se estende de Mt 5.1 –7.29.

No Sermão do Monte, o saudoso professor Carlos Oswaldo Pinto ensina que encontramos A Proclamação dos princípios do Rei para a vida no Reino¹. Nesta proclamação Jesus ensina que aos cidadãos do Reino é exigido um padrão de Justiça, conformidade com a Lei, maior que o mero legalismo apresentado pelos escribas e fariseus.

Mt 5.20: Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.

Após a afirmação acima, Jesus apresenta seis exemplos de como seu ensino exige um padrão de justiça muito superior a tradicional interpretação dos Escribas e fariseus (cf. Mateus 5.21 – 48). Estes exemplos apresentam a estrutura “Foi dito” – “Eu, porém, vos digo”. O terceiro destes exemplos é como a Justiça do Reino se aplica ao Divórcio.

Mt 5.31-32: “Foi dito também: ‘Aquele que se divorciar de sua esposa deverá dar a ela uma certidão de divórcio’. Eu, porém, vos digo: ‘Qualquer que se divorciar da sua esposa, exceto por imoralidade sexual, faz com que ela se torne adúltera, e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério’”.

Neste ponto é importante esclarecer que este artigo não pretende ser um estudo exaustivo sobre a complexa questão do divórcio, sobre a qual muitos livros têm sido escritos. Para um estudo mais amplo a respeito do tema, indico o “Comentário Bíblico Lar, Família e Casamento” do Dr. David Merkh².

O ponto principal de Jesus ao citar a questão do divórcio no Sermão do Monte era mostrar que para o cidadão do Reino, o divórcio é uma violação da Aliança Matrimonial, que só termina com a morte.

 

 

O Ensino dos Fariseus

Mt 5.31: “Foi dito também: ‘Aquele que se divorciar de sua esposa deverá dar a ela uma certidão de divórcio’”.

Os escribas e fariseus não viam problema na pessoa se divorciar, desde que dessem uma Carta de Divórcio. Eles restringiam o cumprimento da Lei a dar Carta de Divórcio, o que tornava a Lei fácil de ser cumprida. Vemos um exemplo desta interpretação equivocada da Lei em:

Mt 19.7-8: “Responderam-lhe: Então por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio e repudiá-la? Disse-lhes ele: Pela dureza de vossos corações Moisés vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas não foi assim desde o princípio”.

Quando a questão retorna a pena de Mateus, vemos que os fariseus entendiam que o imperativo da Lei estava em dar a Carta de Divórcio, de modo que se cumprissem este requisito legal não erravam. Jesus então esclarece que a intenção de Moisés no registro da Lei era estabelecer um limite legal para o divórcio, evitando sua banalização, por ser contrário à vontade de Deus.

Dt 24:1-4: Quando um homem tomar uma mulher e se casar com ela, se ela não achar graça aos seus olhos, por haver ele encontrado nela coisa vergonhosa, far-lhe-á uma carta de divórcio e lha dará na mão, e a despedirá de sua casa. Se ela, pois, saindo da casa dele, for e se casar com outro homem, e este também a desprezar e, fazendo-lhe carta de divórcio, lha der na mão, e a despedir de sua casa; ou se este último homem, que a tomou para si por mulher, vier a morrer; então seu primeiro marido que a despedira, não poderá tornar a tomá-la por mulher, depois que foi contaminada; pois isso é abominação perante o Senhor. Não farás pecar a terra que o Senhor teu Deus te dá por herança.

Como dito acima, a pretensão clara do texto de Deuteronômio era proibir que a mulher voltasse para o primeiro marido após ter casado com outro. Essa intenção realça o caráter crítico do divórcio e a importância do casamento, de modo que, divorciar-se de alguém implicava no risco de nunca mais ter a pessoa de volta, o que indicava que não deveria haver divórcios intempestivos.

Percebe-se assim que a citação da Carta de Divórcio no texto é apenas incidental. A Carta de Divórcio deveria ser dada a mulher como uma forma de proteção e deveria declarar o motivo do divórcio, para que ela não fosse acusada de adultério e deveria ser entregue na presença de duas testemunhas que comprovariam o fato.

O motivo do divórcio, em Deuteronômio 24, não é claro no texto e não tratarei dele aqui, mas tudo indica ser algo físico, ligado a pureza, que provavelmente foi observado imediatamente após o casamento. Deste modo, o divórcio citado por Moisés, e não aprovado ou ordenado por ele, como sugeriam os fariseus, levava a mulher a uma situação de segundo casamento irregular e, portanto, a tornava impura.

A interpretação farisaica fazia o divórcio fácil e legítimo desde que realizado sob bases legais. Atualmente, muitos caem no mesmo erro dos fariseus, não vendo problemas no divórcio, desde que seja feito dentro da lei dos homens, limitando a Aliança do Matrimônio a um mero contrato legal, um pedaço de papel que pode ser invalidado por outro pedaço de papel.

 

 

O Ensino de Jesus

Mt 5.32: “Eu, porém, vos digo: Qualquer que se divorciar da sua esposa, exceto por imoralidade sexual, faz com que ela se torne adúltera, e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério”.

Para analisarmos o que Jesus ensina sobre o divórcio neste ponto, vamos dividir a citação acima em duas partes conforme sua estrutura.

“Qualquer que se divorciar da sua esposa, exceto por imoralidade sexual, faz com que ela se torne adúltera…”.

O cerne do ensino, na primeira parte, é que o divórcio, de um modo geral, potencialmente leva ao adultério. Uma mulher divorciada, na cultura israelita antiga, muito provavelmente, se casaria novamente para sua subsistência. Essa situação é considerada por Jesus como um adultério. Este é o caso de Deuteronômio 24, pois a mulher repudiada teria sido tornada impura depois do segundo casamento.

O divórcio é apresentado como uma tentativa humana de fugir da vontade revelada de Deus, o rompimento de uma aliança que deveria refletir a aliança de Deus com seu povo.

Em Mateus 19, diante da indagação dos fariseus sobre o divórcio, Jesus cita Gênesis e não Deuteronômio, mostrando que a base da vontade de Deus para o casamento estava no seu ato institucional e não na resposta da Lei ao pecado humano.

Mt 19:3-6: “Aproximaram-se dele alguns fariseus que o experimentavam, dizendo: É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo? Respondeu-lhe Jesus: Não tendes lido que o Criador os fez desde o princípio homem e mulher, e que ordenou: Por isso deixará o homem pai e mãe, e unir-se-á a sua mulher; e serão os dois uma só carne? Assim já não são mais dois, mas um só carne. Portanto o que Deus ajuntou, não o separe o homem”.

No plano de Deus para o casamento está a não dissolução do pacto matrimonial. O divórcio surge como um elemento para dificultar legalmente a prática pecaminosa comum de violar a aliança matrimonial.

No cerne do ensino de Jesus está o entendimento de que Deus odeia o divórcio, pois é uma tentativa humana de separar o que Deus uniu.

Ml 2.14: “Todavia perguntais: Por que? Porque o Senhor tem sido testemunha entre ti e a mulher da tua mocidade, para com a qual procedeste deslealmente sendo ela a tua companheira e a mulher da tua aliança”.

 

Ml 2.16: “Pois eu detesto o divórcio, diz o Senhor Deus de Israel…”.

Muitos dos modernos defensores do divórcio mantêm seu foco na cláusula de exceção de Mateus 19, o que é um erro, pois é a procura de um caminho para fugir da essência do ensino de Jesus que é a integridade e a manutenção da aliança conjugal.

Neste ponto, pode-se argumentar que a insistência do cônjuge em manter relações sexuais fora do casamento é um motivo justo para o divórcio, e sim, o não arrependimento do cônjuge que continuamente mantêm práticas sexuais impuras poderia levar ao divórcio.

Jr 3.8: “Sim viu que, por causa de tudo isso, por ter cometido adultério a pérfida Israel, a despedi, e lhe dei o seu libelo de divórcio, que a aleivosa Judá, sua irmã, não temeu; mas se foi e também ela mesma se prostituiu”.

Todavia, destaco que a dissolução do casamento, mesmo por imoralidade sexual, nunca é a opção ideal. O melhor caminho sempre é o arrependimento, o perdão, a mudança e o leito sem mácula.

Analisamos agora a segunda parte da sentença de Jesus:

b. “… e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério”.

Esta afirmação pode ser estudada em conjunto com outros textos do Novo Testamento e é motivo de muita disputa teológica.

Lc 16.18: Todo aquele que repudia sua mulher e casa com outra, comete adultério; e quem casa com a que foi repudiada pelo marido, também comete adultério

Mc 10.11-12: Ao que lhes respondeu: Qualquer que repudiar sua mulher e casar com outra comete adultério contra ela; e se ela repudiar seu marido e casar com outro, comete adultério.

1Co 7.10-11: “Todavia, aos casados, mando, não eu mas o Senhor, que a mulher não se aparte do marido; se, porém, se apartar, que fique sem casar, ou se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher”.

Mt 19.9-11: “Eu vos digo porém, que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de infidelidade, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério. Disseram-lhe os discípulos: Se tal é a condição do homem relativamente à mulher, não convém casar. Ele, porém, lhes disse: Nem todos podem aceitar esta palavra, mas somente aqueles a quem é dado”.

Fica claro que o princípio geral é de que um novo casamento após divórcio implica em adultério. Embora entenda que baseado em Mt 19.9 e 1Co 7.15 exista um ponto de discussão em que poderia ser considerado possível o recasamento, não abordarei essa possibilidade aqui, por entender que em ambos os casos o ensino geral é o não recasamento. Deliberadamente não vou tratar neste artigo, se é possível uma exceção bíblica para o recasamento em casos extremos de adultério ou abandono por parte de um não crente, pois, meu interesse declarado é defender a manutenção do casamento com todas as forças, como quem não tem outra opção.

Este é o ponto em que a graça de Deus para um casamento santo e até a morte é apresentada. Mateus 19 registra que os discípulos consideraram casar e assumir um pacto até a morte arriscado demais. Na lógica deles, se não poderiam se divorciar e recasar, era melhor não casar. Todavia, Jesus mostra que este padrão elevado só é alcançado com uma dádiva graciosa de Deus.

Apenas a graça de Deus pode trazer a segurança para os casados. A total dependência de Deus é a solução para os casamentos ruins, não o divórcio. O elevadíssimo padrão do Reino requerido para o casamento é fruto da ação graciosa do Espírito Santo nos crentes e não resultado de um esforço moral humano ou de regras socialmente estabelecidas.

O divórcio nunca é uma boa opção para os cristãos, sempre devemos buscar a graça de Deus para a manutenção do nosso casamento. Devemos sempre, e especialmente quando passamos por lutas conjugais, orar por nossos casamentos; buscar aconselhamento bíblico para resolver questões recorrentes; focar em nossas obrigações bíblicas como cônjuge em vez de acusar o outro.

Se o divórcio tornou-se, inevitável pela falta de arrependimento de um cônjuge obstinadamente infiel, deve-se confiar na graça de Deus para permanecer solteiro. O mesmo Deus que permitiu que você esteja nessa situação, o sustentará em graça, suprindo em Cristo cada uma de suas necessidades.

Todavia, se você já está em um novo casamento, fruto de um divórico, deve reconhecer o seu erro, arrepender-se e reconhecer a impossibilidade de voltar atrás. Meu entendimento é de que você não deve se divorciar novamente, pois, isso seria um novo erro. Viva seu atual casamento conforme Deus exige de um bom marido e uma boa esposa. Considere a graça e a misericórdia de Deus e seja feliz ao lado de seu atual cônjuge, reconhecendo que o seu caso não deve ser um exemplo a ser seguido por casais que passam por lutas em seus casamentos e de que o divórcio vale a pena.

Concluo afirmando, com toda força, que o casamento nos torna uma só carne com nosso cônjuge e essa união só termina na morte e apenas no poder de Cristo podemos viver essa união de forma feliz e plena, conforme o plano do Senhor.

Pastor Alex Mello

Professor na Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos (ABCB).