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No livro, Help! I’m a parent (Socorro! Eu sou um pai), S. Bruce Narramore afirma que:

“Em nossa sociedade espera-se que as pessoas tenham mais ou menos 15 anos de educação antes de poderem ensinar nas escolas públicas. Os médicos estudam mais ou menos 25 anos para exercer a medicina. Carpinteiros e mecânicos trabalham anos como aprendizes. Mas para o trabalho de educar um filho, não damos nem exigimos qualquer treinamento formal.”

Quando pensamos sobre o lugar da igreja na vida de um filho, estamos questionando sobre o tipo de relacionamento que deve haver entre pais e filhos, sobre as responsabilidade exercidas por cada um, além de reconhecer que ambos têm diferentes personalidades e desejos, que normalmente se inclinam em direções diferentes, além de sempre serem voltados para si mesmos. Isso por si só produz algum tipo de tensão quanto à prática de uma fé viva e relevante.

 

Contrariando a tradição cristã, o lar, e não a igreja, recebeu a incumbência prioritária de ensinar as verdades expostas nas Escrituras Sagradas às crianças. Quando examinamos a Palavra de Deus encontramos diretrizes que apontam para o relacionamento entre pais e filhos como sendo resultado do amor que cada um tem ou terá por Deus, começando obviamente pelos pais. Ao trazer a repetição da lei para uma nova geração que possuiria a terra prometida, Moisés apresenta uma menção direta e normativa sobre a responsabilidade espiritual dos pais sobre os filhos, onde a crença na existência de um único Deus e o mandamento de amá-lo sobre todas as coisas rege a centralidade da missão paterna (Dt 6.1-8), tendo como ambiente dessa vivência primariamente o lar.

 

No ambiente familiar um filho aprenderá sobre a existência de um único Deus, e que Ele deve receber a primazia de seu amor. Voddie Bauchan disse que: “Se o amor bíblico é o fundamento, uma cosmovisão bíblica é a estrutura. Então, é imperativo que os pais preparem seus filhos para pensarem biblicamente. Um filho sem uma cosmovisão bíblica é como um jogador sem tática.” Por esta razão, o alvo de um pai não é apenas levar os filhos a fazer o que Deus manda, mas alcançar seus corações para influenciá-los a submeter-se à vontade de Deus.

 

Moisés viu a vida no lar como o principal sistema de transmissão da verdade de Deus – de geração em geração. A educação de filhos nada mais é do que a prática bíblica de discipulado, onde alguém maduro influencia o imaturo a desenvolver essa maturação para a vida, e isso se dá pelo ensino consistente da Palavra de Deus no lar, onde pais que amam a Deus vivem a Palavra de Deus e constroem um ambiente onde as verdades de Deus são conhecidas e praticadas.

 

No lar, pais atuam como referenciais de fé. Um referencial é o corpo ou lugar a partir do qual as observações de fenômenos diversos são feitas. Ao mudar o referencial, a percepção dos fenômenos também muda. O referencial pode ser entendido como o ponto de vista de um observador colocado em determinado lugar no espaço.

 

Sem referencial um filho não tem como medir progresso na vida; não tem como examinar entre o certo e o errado; não tem como estabelecer liderança, hierarquia. Pensando na missão de educar um filho, sem referencial os pais não têm como orientar seus filhos biblicamente, ou oferecer limites a eles.

 

Diante desse quadro a pergunta central não é se um pai deve forçar o filho a ir para a igreja, mas por que uma criança que está aprendendo a conhecer um único Deus e a amá-lo sobre todas as coisas resistiria a ir à igreja?

A resposta a uma pergunta como essa implica numa série de valores que precisam ser refletidos com atenção para que não haja nem confusão, nem acomodação.

 

Levar um filho à igreja, em primeiro lugar, trata-se de uma consciência, por parte de pais, que compreendem que o fato do lar ter a primazia na formação espiritual não anula o lugar, papel e autoridade da igreja sobre uma família, que foi estabelecida por Deus para viver em comunidade, e neste caso, no meio da comunidade dos santos (Ef 2.11-22).

Neste sentido, em segundo lugar, os pais levam os filhos à igreja, desde cedo, com o objetivo de ensinar o valor da igreja na vida do salvo, e suas implicações para a prática de uma vida cristã sábia.

 

Um terceiro valor de levar os filhos à igreja, está em oferecer um ambiente de construção de relacionamentos (amizades) entre filhos que também estão experimentando a influência do Evangelho de Cristo. A convivência com famílias de salvos estimula o aprendizado em meio a busca pelo amadurecimento e pelo lapidar mútuo (Pv 27.17).

 

Além disso, um quarto valor evidente de levar os filhos à igreja, atende à necessidade de pais que não sabem tudo e precisam de apoio para sua missão na educação dos filhos. Pais que estão estudando a Bíblia na comunidade cristã com outros pais, terão maior possibilidade de ensinar a Bíblia no contexto do lar com mais eficiência, amor e eficácia.

 

Um quinto valor para levar os filhos à igreja está relacionado ao primeiro, mas recebe um destaque, pois se trata da formação dos filhos como adoradores. Um filho que está aprendendo a crer num único Deus e amá-lo, o faz em primeiro lugar sob a influência dos pais, no ambiente do lar, no entanto, isto é um treinamento para a adoração diária (1Co 10.31), mas também para a adoração semanal, onde ele tem que se ver como um filho de Deus que presta um culto vivo, santo e agradável.

 

Resumindo, levar um filho à igreja, trata-se de uma consequência natural de uma influência biblicamente espiritual, de pais que amam a Deus, na vida de filhos que estão aprendendo a amar a Deus.
Com esta perspectiva de missão paternal em mente, temos uma resposta muito mais paradoxal do que ambígua à pergunta: – “Devo forçar meu filho a ir para a igreja?”.

 

Inicialmente a resposta é “Não”, pois um pai não deve forçar um filho a ir à igreja, no sentido, de coagir sua fé, isto seria o mesmo que produzir uma fé falsa. As estatísticas livres apontam que para cada dez jovens que crescem numa igreja cristã evangélica, oito abandonam a fé quando vão para a Universidade. Talvez uma das razões óbvias tenha sido um padrão de forçar a frequência numa igreja sem medir um testemunho genuíno de fé salvífica.

 

Por outro lado, a resposta é “Sim”, pois um pai não pode deixar um filho livre em suas escolhas durante o processo de formação da vida. Neste sentido a ideia de “forçar” pode ser confundida com a ideia de estabelecer princípios familiares para o dia do Senhor. Entendo, que enquanto um filho está na casa do pai, ele deve respeito e submissão à sua autoridade. Mas também creio que pais sábios, saberão construir uma influência correta sobre a vida cristã, que terão uma comunicação adequada nas etapas de formação de um filho.

 

Isto tudo nos leva a uma conclusão: Forçar um filho a ir à igreja pode ter um lugar em algum momento, sobretudo quando são pequenos, mas ter que passar a vida fazendo isto pode significar algum grau de inabilidade, por parte dos pais, em estimular os filhos a conhecer a Deus e aprender a amá-lo sobre todas as coisas.

 

Se puder terminar com um conselho é: Pais amem a Deus e à sua igreja e seus filhos olharão para Deus e para sua igreja, no entanto, aprendam a amar a Deus como a Bíblia ensina e a congregar numa igreja realmente bíblica, que não negocia a verdade, pois um padrão baixo de vida cristã produz frutos espiritualmente fracos.

Walace Juliare

Bacharel em Teologia pelo SBPV (Seminário Bíblico Palavra da Vida) – Atibaia-SP e pela FTSA (Faculdade Teológica Sul Americana) de Londrina – PR. Mestrando em Aconselhamento Bíblico no SEBI/CETEVAP (Centro de Estudos Bíblicos do Vale do Paraíba) em São José dos Campos, onde serve como Pastor no Templo Batista Bíblico; Professor de teologia no CETEVAP, SEBARSP (Seminário Batista Regular de São Paulo) e na SEBI (Sociedade de Eatudos Bíblicos Interdiciplinares de Brasília).