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É claro que você já identificou de onde vem o título deste artigo. É de Atos 8:30, onde Felipe, auxiliar dos Apóstolos, foi enviado por um anjo do Senhor (vs. 26) a encontrar com um etíope que lia o texto de Isaias 53:7-8, porém não o entendia e necessitava que alguém o explicasse.

O que eu quero chamar a atenção é de que ninguém que não tivesse conhecimento de Deus e fosse orientado pelo Espírito Santo poderia entender corretamente o texto do Profeta Isaias e muito menos explicá-lo a alguém.

Conhecer o autor é uma lição primordial para quem quer se tornar um bom leitor. Aquele que lê um livro não compreenderá a obra apenas lendo-a, mas deverá buscar informações sobre o autor e suas fontes, quando houver. Deve recorrer aos documentos que originaram ou sustentam a obra literária e sempre que possível lê-las em sua língua original.

Vejo que o número de leitores cristãos em nosso país aumentou consideravelmente nas últimas décadas, mas temo pelo que está sendo entendido por aí a fora, e mais o que está sendo propagado.

Ás vezes me vem à mente aquela brincadeira do telefone sem fio, onde uma fila é formada e a primeira pessoa da fila diz para a de trás: “Em terra de cego quem tem um olho é rei” e ao final da fila, depois de ser retransmitida a informação para umas 20 pessoas a frase que chega é que “Enterra o rei que não é cego, mas é caolho”.

Fulano lê, entende o que quer, passa para beltrano, que entende parcialmente o que foi lhe dito e imediatamente transmite a cicrano, que não entendeu nada, mas repassou.

Ler um livro, especialmente de doutrina ou comentário exige muito mais do que adquirir a obra e lê-la, é necessário conhecer o autor, seu contexto no momento da escrita, suas convicções, sua formação e suas fontes.

Quando estava concluindo curso de Direito e já me preparava para o exame da Ordem dos Advogados um professor me deu uma preciosa lição. Ele disse: “Se você quiser ser bem sucedido em uma ação, seja ela qual for, visite o juiz e quando estiver na sala dele verifique os livros que tem na prateleira e principalmente os que estão sobre a sua mesa”.

O que meu professor, que também era juiz, disse em outras palavras o seguinte: “Conheça o julgador, aquele que irá decidir e dar a sentença, conheça os autores que ele lê, saiba quem são seus instrutores e influenciadores. Você conhecerá seus argumentos e forma de raciocínio, você verdadeiramente saberá o que ele diz e aí então poderá se comunicar de forma clara e precisa de modo que ele o entenda, o que será um bom caminho para convencê-lo de que seu cliente tem razão.

O AUTOR

 

Da mesma forma para entendermos um livro, não basta lê-lo é necessário primeiro conhecer o autor, obter o máximo de informação sobre ele. O criador vem antes da obra isso é princípio elementar, norteador para uma boa leitura. Compreenderemos muito melhor aquele que conhecemos.

Ler um livro de doutrina ou um comentário de texto bíblico não é o mesmo que ler um romance ou ficção. Estes últimos não possuem o compromisso de transmitir verdades, princípios e conceitos. Eles visam proporcionar horas de lazer e descontração, inclusive esperam que cada leitor fantasie a estória e seus personagens segundo as suas próprias impressões, tendências e preferências.

Já um livro de doutrina ou um comentário do texto bíblico é completamente diferente. Não podemos tratá-lo da mesma forma dos romances ou ficção eles exigem bem mais do leitor. Exigem estudo e não uma leitura descontraída É preciso tratá-los como um objeto de investigação.

Uma investigação não apenas do conteúdo, mas de quem o escreveu e dos documentos utilizados por ele.

É importante saber onde o autor nasceu e viveu para que possamos ter uma idéia da de sua formação e fatos relevantes da história que tenha vivido. O leitor de Martin Lloyd Jones precisa saber que ele pregou alguns de seus grandes sermões durante a II Guerra Mundial, que foi um médico promissor. Essas são informações que irão auxiliar um correto entendimento de suas obras.

Recomendável é antes de ler um livro realizar uma pesquisa biográfica sobre o autor. Também uma investigação sobre suas convicções teológicas e vida ministerial.

Dá trabalho! Claro que sim! Você certamente sabe que compreender quem está ao nosso lado e vive conosco diariamente já é difícil, imagina ler as idéias de alguém que você não conhece pessoalmente, vive ou viveu a realidade de outro país, fala uma língua que não é a sua e talvez tenha vivido em uma época em que não se tinha internet!?

Por exemplo, muitos já leram o “Evangelho segundo Jesus Cristo” de John MacArthur sem nunca ter lido “Balancing the Christian Life” de Charles C Ryrie e sem conhecer o quanto e porque esse livro impactou tanto os EUA no início dos anos 90.

O livro do Pr. MacArthur é lido hoje, no Brasil, sem qualquer cuidado em se saber o contexto em que foi escrito. Existem irmãos que fazem uma defesa veemente a “Doutrina do Senhorio de Cristo”, sem conhecê-la verdadeiramente, sem saberem a importância do livro para os americanos quando ele foi escrito, sem entender as implicações e muito menos compreendem a refutação respeitosa aos argumentos contrários feitas pelo Pr. MacArthur.

Pessoalmente concordo com a doutrina do “Senhorio de Cristo”, mas investiguei aqueles que não concordam e não o fiz lendo o material daqueles que defendem a doutrina, mas daqueles que discordam dela, para ver seus argumentos e compreensão.

Temos uma grande quantidade de leitores imperitos, no caso mencionado, que não entenderam corretamente ou plenamente John MacArthur e por isso já vi alguns execrando Lewis Sperry Chafer, de forma desdenhosa, pela questão do “cristão carnal” mencionado no livro “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, pois ignoram que existe um profundo respeito do pai do próprio Pr. John MacArthur com as obras de LSChafer.

Você pode encontrar o próprio Pr. John MacArthur Jr. afirmando que seu pai se valeu de um exemplar da Teologia Sistemática de Chafer para evangelizar o “Grande Impostor” Fred D, que verdadeiramente entregou sua vida a Jesus após ler a obra. Esse fato foi narrado em outro livro de MacArthur: “Chaves para o Crescimento Espiritual”.[i]

São tantos reproduzindo as doutrinas de Sproul, Spurgeon, Piper, Washer, Pink, Parker e tantos outros, mas não os conhecem e por isso mesmo muitas vezes propagam ensinos ou creditam a eles o que eles nunca ensinaram ou disseram.

O leitor de doutrina precisa ser criterioso, cuidadoso, um investigador minucioso, um conhecedor da língua portuguesa e da Teologia Sistemática.

Se assim proceder obterá rica colheita por meio desses grandes homens de Deus, caso contrário, estarão falando do que não entendem.

 

AS FONTES

 

Conhecer as fontes dos autores também é fundamental, não apenas as fontes usadas nas referências de alguma obra, mas também as fontes das quais o autor bebe, ou seja, quem o autor lê e se possível lê-las também. Você sabe quem são os autores que John Piper lê ou está lendo?

Também se tratando de livros doutrinários e comentários lê-los utilizando como suporte o texto bíblico que foi originalmente utilizado pelos comentaristas e doutrinadores, bem como os documentos mencionados por eles. Aceitar as provas sem pessoalmente verificá-las é ser superficial no estudo, é estar suscetível ao engano.

Apenas para se ter uma idéia é comum encontrar ferrenhos calvinistas usando o “Texto Crítico” para estudar e pregar sobre os ensinos dos reformadores, quando os reformadores usaram basicamente o Texto Recebido. Por exemplo, tentar entender os Comentários de Calvino com uma Bíblia ARA, NVI ou pior uma NTLH ou NVT.

É erro crasso de investigação para o teólogo. É falha inadmissível até mesmo para um ímpio principiante investigador de documentos históricos.

Para entender o que alguém comentou sobre algo tenho de consultar suas fontes originais para compreendê-lo. É óbvio! Caso contrário abre-se o caminho para o “efeito telefone sem fio”.

Certa vez ministrava aula sobre o Trinitarianismo quando apresentei aos alunos duas confissões de fé históricas com respeito ao assunto. A primeira foi a Confissão de Fé de Westminster, mais precisamente o Capítulo 2, inciso III e pedi para que lessem o vs. 14, do Capítulo 13 de 2 Coríntios. O aluno surpreso olhou para mim e disse: “Pastor minha Bíblia não tem esse versículo!”. Ele usava uma ARA e realmente não tinha, pois ela é baseada no Texto Crítico e não no Recebido, que foi o usado para a feitura da confissão em questão. No Texto Crítico o versículo é o 13.

Parece sem importância? Não vou tratar aqui, pois não é este o objetivo, mas você poderá ler o comentário de Calvino sobre 1 Tm 3:16 e não encontrar “Deus” no versículo da sua Bíblia, aliás o próprio Calvino, neste caso salienta esse fato com relação a Vulgata, mas o assunto é justamente o “mistério” que consiste em que Deus se manifestou em carne, portanto o nome de Deus se torna importantíssimo no texto para robustecer o argumento e seria essa a razão do Senhor ter escrito dessa forma.[ii]

Ou talvez sua Bíblia não tenha o “homicídio” elencado em Gálatas 5:21 que é expressamente mencionado pelo reformador em seu comentário[iii]. Essas são questões mais fáceis de serem verificadas e simples para um entendimento rápido, mas existem questões mais profundas com implicações mais sérias que demonstram que é necessário o estudante utilizar o texto correto para compreender adequadamente o que os reformadores escreveram.

Na mesma aula abordei a Confissão de Fé de Londres 1689 e então baixei o documento da internet, de um site, que não vou mencionar o nome, mas que faz sucesso entre os reformados e até para minha surpresa a referência de 2 Co 13:14 estava adulterada para 2 Co 13:13.

Alguém achou que podia modificar o documento para melhor adaptar ao Texto Crítico.  Então acessei o site  https://www.the1689confession.com/ e pude mostrar aos alunos que o texto original da confissão de fé é 2 Co 13:14 o que demonstra que foi utilizado o Texto Recebido.

Tais erros têm sido cometidos tanto por crentes leigos, naquilo que concerne a teologia, o que é compreensível, quanto pelos alunos e professores de teologia. Creio que muitos sequer foram despertados para tal questão básica de investigação.

A principal lição é de que não devemos confiar nas informações que são publicadas sem lermos as fontes que lhe deram origem. Muitas vezes são publicadas com erros e levam a enganos maiores, quero acreditar que por ignorância ou mesmo descuido dos publicadores e não má fé ou conveniência, mas também não me admiraria se em alguns casos isso ocorresse.

Tais modificações lesam a credibilidade, pois se uma referência pode ser modificada, o que mais foi alterado? Então melhor é ir até a fonte e checá-la.

Ser um bom leitor exige aprendizagem e prática como qualquer outra atividade.

O livro é uma excelente ferramenta, mas pode se transformar em uma terrível arma contra o próprio leitor e aqueles que o ouvem, pois se mal compreendido transmite-se mentiras e enganos e certamente todos darão contas disso, mesmo que pela negligência, pela falta de perícia ou por ser imprudente.

Se as argumentações e conclusões são diretas do autor do livro muito bem, mas sempre devem ser confrontadas com o que a Bíblia diz.

Não é porque determinado autor, palestrante ou pastor sempre pregou verdades bíblicas que desta vez irá fazê-lo. O crédito que possuem lhes confere o direito de serem ouvidos, mas não mais do que isso. Nunca irei pressupor que o que dizem ou escrevem é verdadeiro até que eu os compreenda corretamente e confronte o que dizem com o que a Bíblia afirma.

Nunca suas vidas pregressas irão fazer com que eu acredite em uma doutrina que pregam. Apenas a Bíblia fará isso comigo.

TRADUÇÕES

Infelizmente, nós brasileiros, somos carentes quanto a bons escritores evangélicos, pois os poucos que escrevem dificilmente produzem algo, apenas reproduzem compilações daquilo que os norte-americanos já escreveram.

Assim recomendo que sejam lidos os originais na língua inglesa, mas se não for possível então leiam os originais traduzidos para a língua portuguesa, porém levem em consideração de que toda tradução existe em algum grau uma dificuldade de expressar a qualidade, raciocínio ou intensidade da idéia do autor que o fez em sua própria língua.

A compreensão de um livro traduzido exige mais do leitor do que a leitura na língua nativa. Os cuidados devem ser maiores.

Não é difícil encontrar erros grosseiros em livros de doutrina e comentários em português. Já li obras em português que conhecia bem o autor e sua linha teológica e pude claramente ver que o que se encontrava no livro era contrário as convicções do autor.

E ao consultar a obra, no caso, em inglês pude confirmar o erro de tradução. Isso acontece, creio eu, porque as editoras falham quanto aos tradutores, que muitas vezes não possuem conhecimento doutrinário geral ou especializado sobre o assunto, mas apenas da língua estrangeira e ao traduzirem falham em termos técnicos teológicos ou mesmo no raciocínio da teologia.

Já cheguei a ligar para uma editora e alertar sobre o erro de um determinado livro e mesmo conversando com as pessoas que me indicaram, elas não tinham conhecimento suficiente para compreender que o texto era contraditório e certamente não o era por causa do escritor e sim da tradução. Era muito claro! Desde que se conhecesse a doutrina.

O problema é que aqueles que lêem também não possuem conhecimento suficiente para poder detectar a falha, e passam a transmitir erros maiores e pior atribuindo tais enganos a autores que não fazem a mínima idéia das aberrações que estão sendo atribuídas a eles.

Conclusão! Leitor cuidado! Muito cuidado! Não leia apenas, investigue!

Pr. Cantoca

Escritor do blog www.tornatepadrao.com.br

 

 

[i] “Chaves para o crescimento espiritual” –  John F. MacArthur Jr. – – Editora Fiel, São José dos Campos – SP, 5ª edição, 2001, pág. 64.

[ii] “Pastorais – Série comentários bíblicos – João Calvino” – Editora Fiel, São José dos Campos, 2009, pág 97.

[iii] “Gálatas – João Calvino” – Editora Fiel, São José dos Campos, 1998, pág. 169.