Quando pequeno sonhava em ser piloto de avião. Ficava deslumbrado quando via um piloto defronte àquela quantidade enorme de botões, alavancas, indicadores e com a prancheta na mão checando cada um deles. Depois observava atentamente ele ligar os equipamentos necessários para que enfim a aeronave decolasse.

Em nossos dias, me parece que o cristão tem feito das atitudes básicas do seu viver, como amar, exortar, suportar e em especial perdoar, uma decolagem de avião. Ele tem acreditado ser necessário uma infinidade de procedimentos, métodos, treinamentos, condições, quesitos a serem checados para que se consiga então fazer uma decolagem e um voo e mesmo assim sustentar a aeronave no alto parece ser algo complicado demais.

O perdão é uma questão que tem ocupado as mentes de alguns teólogos, assim como tantos outros assuntos da Bíblia que parece terem se tornado de difícil entendimento e prática na vida do crente.

O problema na realidade não é entender o que a Bíblia manda fazer, mas fazê-lo. Os cristãos alegam que precisam estudar mais para entender sobre a vida cristã, porém isso tem se transformado em justificativa para não praticar o que é determinado. Me lembra aquelas pessoas que se fazem de desentendidas quando lhe é determinado que faça algo que não quer fazer. Fulano! Por que você não fez o que eu mandei? Por que eu não entendi!

É muito mais fácil ficar fazendo cursos de reciclagem do que trabalhar não é? Por isso tudo se torna complicado na vida do cristão. São tantas luzes piscando, tantos botões a serem ligados e checados, tantos planos de voo, métodos, tarefas a serem cumpridas para que se consiga tirar o avião do solo, que muitas vezes a vida não progride além de um simulador de voo.

O perdão me parece que se tornou um desses aviões, pesado e difícil de colocar para voar, pois tem se exigido uma série de procedimentos em solo antes de que a obra seja feita.

Quando na verdade o perdão não é um avião! O que falta, é definitivamente obedecer apenas uma ordem simples, mas que exige humildade, amor e entendimento bíblico. Veja entendimento e não um vasto conhecimento teológico.

A questão que vem a baila é: “O que é preciso para que se perdoe alguém?

Sinceramente não encontro na Bíblia nenhuma condição imposta além da existência da ofensa para que o ofendido possa praticá-lo. Encontro sim prescrita a responsabilidade do ofensor em se arrepender e pedir perdão, mas não que a falta desse elemento constitua uma condição ou impedimento do ofendido cumprir o seu dever bíblico de perdoar.

A condição para uma prática quando é imposta na Bíblia é clara, inequívoca, e aí sim podemos afirmar que ela existe, vejamos:

E, indo eles caminhando, chegaram ao pé de alguma água, e disse o eunuco:

Eis aqui água; que impede que eu seja batizado?

E disse Filipe: É lícito, se crês de todo o coração.

E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus.

Atos 8:36-37 – ACF (grifo meu)

Cheguei a ler um livro recentemente em que o autor estipula como regra bíblica de que o perdão apenas poderá ser concedido caso o ofensor peça. Se isso não ocorrer caberá ao ofendido continuar insistindo no arrependimento do ofensor e no pedido de perdão para que então possa finalmente perdoá-lo.

Apesar de nutrir respeito pelo tal autor e entender que seja um irmão em Cristo já tendo contribuído muito para o cristianismo em seus anos de vida, vejo que seu raciocínio está equivocado quanto a esse assunto.

É certo que existem aqueles que acham que se deve perdoar o universo, os animais por seus ataques, a natureza por sua fúria. E com esses não gastarei o meu e o seu tempo em contestá-los, diante do claro absurdo de suas teses.

Com relação à “perdoar” posso afirmar que ela é bem mais do que somente uma palavra ela indica uma das ações pilares do cristianismo. Está presente na salvação e percorre toda a vida de santificação até a glorificação do salvo.

Aprender o que esta ação significa é necessário e urgente, uma vez que os cristãos se relacionam com pessoas durante toda a vida e constantemente se veem envolvidos em conflitos, muitos deles os quais restam mal resolvidos por anos a fio.

Outros tantos acabam sendo mascarados por frases ditas “da boca para fora” visando evitar mais transtornos, sem que signifiquem nada de real, sobrando apenas hipocrisia. É o famoso: “você finge que pede perdão e eu finjo que perdoo” e então todos estamos bem, quando todos sabem que não está.

Creio que na vida do cristão para se impor a ação do perdão basta que haja ofensa e nada mais. A partir do momento em que o ofendido tem convicção de que realmente houve a ofensa deliberada por parte do ofensor então já lhe está ordenado que perdoe, nenhum outro quesito lhe proporcionará o protelamento da ação, ou seja, a demora em agir, tudo mais se torna desculpa para a desobediência.

O perdão para o cristão é diferente daquilo que o mundo nos ensina, ele é um princípio distintivo de quem ele é. Diferentemente dos casos previamente arquitetados para os cursos e aulas nem sempre o ofensor é cristão, aliás creio que na maioria das vezes ele não é. Somos ofendidos no serviço, na vizinhança, nos locais de eventos públicos, no trânsito, entre os familiares e a maioria deles não se pautam pela Bíblia ou fazem parte de nossa igreja.

Dessa forma eles não agirão como cristãos. Precisamos lembrar que a disciplina Bíblica descrita em Mateus 18:15-20 é o procedimento adotado entre crentes e mesmo ali não vemos a imposição do pedido de perdão para que se perdoe, pois não é exatamente isso a mensagem central do texto.

Dessa forma se um cristão acredita que ao confrontar o ímpio ele se arrependerá é bem provável que se decepcione. Não que deverá se omitir em confrontá-lo, mas deverá estar preparado para uma reação hostil, até mesmo sofrer maiores ofensas. E para estar preparado para esta situação, lhe afirmo, sinceramente é melhor ele já ter perdoado tal pessoa, caso contrário seu coração se inflamará mais ainda.

A realidade é bem diferente do laboratório, onde tudo é controlado. Na vida real não temos controle sobre as ações e reações das pessoas com quem nos relacionamos, elas nos surpreendem, elas não seguem sequer o padrão que elas mesmo estabelecem e muitos nem possuem padrão algum.

Devemos saber que ainda que o princípio bíblico seja o mesmo as pessoas são diferentes, suas motivações, comportamentos, e reações. Não dá para tentarmos colocar cada uma delas nas caixas que nós fabricamos. Seremos muito ingênuos se acharmos que pessoas são ingredientes aos quais se acrescentarmos outros determinados componentes e seguirmos certos procedimentos então ao final serão belos e deliciosos bolos.

Não! Pessoas são pessoas não são bolos! E para serem pessoas é intrínseco que sejam diferentes entre si e devemos considerar isso. É claro que Deus é Santo e imutável e exige santidade e também é óbvio que todos os seres humanos nascem pecadores.

Também é evidente que a Bíblia aponta para o que deve ser feito para corrigir esses erros, mas fora o que a Bíblia diz tem sido acrescentados métodos e métodos humanos, que não encontramos na Bíblia, os quais apesar de não declararem estão suprimindo os procedimentos determinados pelas Escrituras, como a dependência do Espírito Santo, o jejum e a oração.

Creio que muitos “conselheiros cristãos” sequer sabem o que é o jejum, apenas o pratica por determinação médica, mas nunca por ordem do Senhor, conforme a Bíblia determina.

Então raciocinemos, o “perdão” envolve inevitavelmente ao menos duas pessoas e sabemos que não temos controle sobre a ação da outra parte. Portanto, se para o cristão perdoar ele depende da ação do ofensor, estará inevitavelmente submisso ao controle do outro.

Aceitar isso seria afirmar que para obedecer o que a Bíblia diz eu estou condicionado ao outro e pior talvez a um incrédulo.

Não creio que minhas ações de obediência devam estar submetidas às ações alheias exceto àquela que deu causa ao meu perdão, ou seja, a ofensa, ela já é o bastante para desencadear ações de justiça e de bondade de minha parte.

Nunca a atitude do outro poderá ser usada como justificativa para retardar minha ação de santidade. Exigir o pedido de perdão do ofensor para que se perdoe, nada mais é do que encontrar um motivo para aliviar minha consciência. Meu Deus já me perdoou de ofensas maiores cometidas contra Ele então é meu dever e não direito perdoar quem me ofende.

O ofendido que busca o pedido de perdão traz consigo a compreensão de um dano sofrido de forma injusta se tornando um credor em relação ao ofensor. Tal crédito apenas estaria quitado no caso do pedido, quando então a obrigação se inverteria e agora o ofendido estaria obrigado a perdoar.

Não creio que é isso que a Bíblia ensina, pois caso o ofensor não se arrependa ou não peça perdão ou ainda não realize a restituição do prejuízo ao ofendido, estaria ele autorizado a carregar a posição de credor e o sentimento de injustiçado estaria justificado, o que certamente gerararia amargura, ressentimento ou até mesmo desejo de vingança.

O cristão ofendido poderia crer que tem o direito de cobrar o que lhe é devido. Mas será que o cristão tem realmente esse direito? Será que algo lhe é devido?

Vejo no texto citado de Mt 18:15-20 como um sublime caminho de restauração e não de cobrança, restauração do relacionamento com Deus até mesmo antes da restauração com o irmão. O ofendido deve encarar como uma oportunidade para auxiliar seu irmão a retomar a intimidade com Deus e não estar preocupado com uma ofensa que acalenta com carinho no seu coração como uma certidão que o confirma como vítima.

Quem é o cristão para se achar digno de cobrar algo de alguém? Na verdade é assim que me sinto diante de uma ofensa depois da cabeça esfriar e refletir em quem sou diante de Deus e do mundo, sob o ensino do Espírito Santo por meio das Escrituras.

Quem sou eu? Um pecador justificado pela obra de Jesus e, portanto, já não sou eu quem vive, mas Cristo é quem vive em mim. Dessa forma as ofensas que sofro ou são merecidas. Me lembrei de Davi agora, de Simei atirando pedras contra o rei conforme 2 Sm 16:5-14. Ou então as ofensas são porque eu obedeço a Cristo. Neste caso não sou eu o ofendido, mas o meu Senhor.

Também existem aqueles que citam 1 Jo 1:9 como justificativa de que o perdão deva ser pedido para que possa ser concedido. Oras ali o que está sendo tratado são as ofensas a Jesus Cristo, e com relação a Deus, acabei dizer sim é necessário pedir o perdão para ser beneficiado por ele, caso isso não ocorra Deus pode sim condenar essa pessoa, pois Deus é justo e justo será se cobrar a injúria, mas eu não. Até porque se tal pessoa pede perdão a Deus, é porque já é um escolhido do Senhor e já está perdoado pela misericórdia.

Então qualquer ofensa cometida contra mim não resta direitos que eu possa reivindicar com relação a minha pessoa. Mas toda ofensa a alguém é em última instância uma ofensa a Deus e dessa forma quando exorto alguém ao arrependimento não é primeiramente para que ela me peça perdão para eu poder perdoar, mas para que ela peça perdão e se reconcilie com Deus.

Por isso a Bíblia determina que devemos exortar nosso irmão quando ele peca, para que contribuamos para a reconciliação dele com Deus.

Diria até que o ofendido deveria chegar para o confronto completamente cônscio de que o ofensor já não lhe deve nada, mas que sua dívida é com Deus. Dessa forma, na prática já o perdoei, mas ainda sim desejo que ele se arrependa diante do Senhor, pois isso é o que importa.

Claro que no caso do ofensor se reconciliar com Deus, arrepender-se e pedir-Lhe perdão haverá ainda a seguir a necessidade de pedir perdão ao ofendido e restituí-lo. Do outro lado caberá ao ofendido aceitar prontamente o pedido e tornar público aquilo que já está determinado em seu coração: Está perdoado!

Se esse não for o entendimento do ofendido e caso nada do que eu relatei acima ocorra com relação ao arrependimento, ou seja, pedido de perdão e ressarcimento, ainda assim o ofendido já tendo perdoado o ofensor não carregará mais o fardo de se sentir injustiçado, vivendo cada dia sob a pressão de ter uma dívida, um prejuízo.

Lógico que o ofendido terá o perdão em seu coração, mas aguardará o momento adequado para declará-lo ao ofensor, até porque este último ainda não reconheceu o seu erro. Porém, desta forma o ofendido não sujeitará sua obediência ao comportamento do ofensor.

A ideia de que eu só perdoo quando o ofensor me pedir perdão não resolve o problema, ela acirra a disputa, ela constitui e autoriza a cobrança da dívida por parte do ofensor. Já no caso do ofendido vencer essa ideia de que carrega um prejuízo injusto sobre si, e perdoar o ofensor, não tendo mais a intenção de cobrá-lo, poderá agora se ocupar de restaurá-lo ou de alertá-lo quanto a ofensa que cometeu contra Deus, que é o que realmente importa. As orações do ofendido serão clamores de um coração amoroso e misericordioso diante de Deus e não um coração arrogante cheio de direitos e créditos.

Por fim, convém explicar que entendo a mutualidade como um resultado e não como a própria ordem em si. Explico, vejo que a Bíblia ao dizer “mutuamente” não vislumbra primeiramente o coletivo e sim o individual, mas usa essa palavra por não haver exceções, ou seja, um mesmo tipo de ação de cada indivíduo, de todos os indivíduos o que resultará em um produto coletivo.

Assim cada crente deve se ater não a palavra “mutuamente” e sim a ordem específica expressada no texto, qual seja, amar, suportar, motivar, perdoar, sem que fique pensando se o outro cristão está ou não realizando a parte dele. Não é em última instância a igreja buscar pela mutualidade e sim cada um se esforçar em praticar a ação determinada em relação ao seu irmão até que todos o façam e como resultado seja alcançada a mutualidade, ela é uma consequência e não a causa.

Por isso devo me mover no sentido de cumprir aquilo que me cabe, senão mais uma vez funcionarei em razão do outro como por exemplo: ele faz eu faço; ele não faz eu não faço; eu faço ele não faz, então não faço mais porque ele não está praticando a mutualidade.

Não! A obediência está em: Eu faço independente do outro fazer ou não, porque a Bíblia me determina!

Dessa forma, para que eu ame meu próximo não é necessário mais do que o fato dele existir,  para que eu suporte não é necessário mais do que ele tenha um problema, para que eu aconselhe não é necessário nada além do que eu ter algo de edificante para alguém, para que eu seja hospitaleiro não preciso mais do que uma pessoa desabrigada e para que eu perdoe não preciso mais do que alguém que tenha me ofendido.

É hora de quem condena o humanismo ser menos humanista, pensar menos em si e aproveitar até mesmo as ofensas sofridas para conduzir os olhos cegos ou obstruídos do próximo Àquele que realmente é honrado e deve ser dignificado, Deus e não a si próprio!

Não citei aquele monte de versículos, pois você pode se servir de uma chave bíblica e ver cada um deles com calma, inclusive buscando encontrar alguma condição clara para perdoar, Quando digo condição clara, por exemplo é tão clara quanto a condição de se crer para ser batizado como em Atos 8:36-38. Isso é uma condição para obedecer!

Mas um texto em especial gostaria de mencionar:

E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas,

Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz.

Cl 2;13-14 – ACF

Para finalizar pergunto: Qual condição se exigiria de um morto para ser perdoado? Que ele pedisse perdão? Claro que não!

Em Cl 3:13 nos é dito que devemos perdoar como Cristo nos perdoou, pois é, mesmo estando mortos Deus se dispôs a nos amar e nos perdoar e nos dar vida. A ofensa já existia, foi o que bastou, Deus não se submeteu a nossa ação para reagir, mas se autodeterminou e agiu, restaurou, reconciliou, salvou.

Será que você realmente está disposto a perdoar ou simplesmente quer encontrar uma justificativa para se prevalecer ou para não fazer o que a Bíblia lhe determina?

 

Cantoca, Pastor e escritor do www.tornatepadrao.com.br