Você saberia me dizer o que Lutero e Agostinho tinham em comum? Ambos se beneficiaram da Educação Clássica. Este sistema de ensino praticado na Idade Média ganhou notoriedade nos dias atuais em face da degradação do ensino moderno. A Educação Clássica se apoiava num currículo baseado nas chamadas Sete Artes Liberais divididas em duas formas de organização: O Trivium e o Quadrivium.

O TRIVIUM 

O Trivium organiza a educação da criança em três áreas bíblicas:

 

O Conhecimento são os fatos: as datas na história, os dados na ciência e as notas na música. O Entendimento organiza os fatos em uma sequência lógica: as razões por trás da história, a teoria da música. A Sabedoria aplica nosso conhecimento e entendimento em maneiras práticas: um artigo sobre a guerra civil, um projeto na feira de ciência ou tocar a música Sonata ao luar.

“Porque o SENHOR dá a sabedoria, e da sua boca vem a inteligência e o entendimento” (Provérbios 2:6).

“Com a sabedoria edifica-se a casa, e com a inteligência ela se firma; pelo conhecimento se encherão as câmaras de toda sorte de bens, preciosos e deleitáveis” (Provérbios 24:3-4).

Se os pais ensinassem para seus filhos essas três habilidades, eles teriam as ferramentas fundamentais para a vida. Essas são as três primeiras artes liberais¹.

A palavra do latim “trivium”, significa “três vias”. A Educação antiga e medieval foi estruturada em torno do trivium – três vias para o aprendizado, que consiste em três matérias:

1. Gramática ou a habilidade de compreender os fatos;

2. Lógica ou a habilidade de raciocinar as relações entre os fatos;

3. Retórica ou a habilidade de expressão sábia e efetiva, e a aplicação dos fatos e suas relações.

Esse mesmo programa de aprendizado pode ser encontrado em outras palavras e em versículos ao longo das Escrituras, porém especificamente no livro de Provérbios.

Conhecimento é a compreensão dos fatos. Entendimento é o raciocínio das relações.  Sabedoria é a aplicação do aprendizado.

Cada criança passa por três estágios de desenvolvimento: Primeiro, o estágio do conhecimento ou gramática (até  os 12 anos) quando a criança prontamente absorve informações e memoriza fatos. Segundo, o estágio do entendimento ou lógica (13 a 15 anos), quando a criança faz perguntas e busca razões. E terceiro, o estágio da sabedoria ou retórica (16 a 19 anos) quando a criança começa a sintetizar o que ela aprendeu e expressar isso de forma criativa e prática.

Cada matéria também avança através destes três passos de desenvolvimento:

 

1. A gramática ou conhecimento da matéria: Os fatos, quem, o quê, onde e quando.

2. A lógica ou entendimento da matéria: A teoria, o porquê.

3. A retórica ou sabedoria da matéria: A prática, o como.

 

Por exemplo, a “gramática” da matemática incluiria os fatos de matemática. A “lógica” incluiria provas de álgebra ou geometria. A “retórica” incluiria: aplicações em agrimensura, contabilidade ou engenharia.

A “gramática” da história incluiria nomes, lugares e datas. A “lógica” incluiria as razões para as guerras, migrações e invenções. A “retórica” incluiria as aplicações destas coisas para os eventos atuais.

O processo de aprendizado naturalmente acontece dentro desta progressão de três etapas. Na linguagem computacional, conhecimento é entrada, entendimento é o processamento, e sabedoria é a saída. Conhecimento/entrada envolve os sentidos quando alguém traz informação. Entendimento/processamento envolve a mente quando alguém descobre e analisa as relações entre os objetos. Sabedoria/saída envolve a voz, as mãos e os pés quando alguém expressa e aplica de forma significativa e prática as coisas que aprendeu.

Crianças são aprendizes naturais, e elas aprendem naturalmente pela progressão do Trivium. Elas ensinam a si mesmas a falar uma língua altamente complexa em seus primeiros anos aprendendo primeiro os fatos: sons, depois suas relações: vocabulário, e, então, começam a expressar o que aprenderam: o balbuciar do bebê.

 

A EDUCAÇÃO MODERNA

 

As disfunções do aprendizado se desenvolvem quando alguém interrompe esta progressão natural. A educação moderna faz exatamente isto. Na educação moderna, o nível de conhecimento é exagerado quando os sentidos da criança estão superestimulados, enquanto aprendem coisas que elas não precisam saber ou não podem lidar ainda. O nível de entendimento é deixado de lado, pois certas maneiras de pensar são sutilmente (e às vezes não tão sutilmente) impostas sobre a mente da criança sem fornecer conhecimento concreto e antes mesmo que elas possam raciocinar corretamente sobre os assuntos. Uma criança não tem as ferramentas adequadas para avaliar as pressuposições do politicamente correto que lhe foi transmitido pelos deuses do “politicamente correto”, aparentemente, por “revelação direta”. Finalmente, o mal direcionamento no nível da sabedoria é percebido quando os adolescentes são encorajados a se expressarem, porém depois de anos de maus tratos educacionais, eles expressam todas as suas frustrações, frequentemente de formas destrutivas.

A não ser que outras coisas interrompam o processo, o produto da educação moderna não amadurece apropriadamente além do nível da “gramática” infantil. Como tal, a criança se torna uma escrava de suas percepções sensoriais e é facilmente influenciada pela propaganda. Elas não conseguem discernir fato de falácia ou prova de propaganda. Não podem definir um termo, analisar um argumento ou a distinção entre uma causa material e uma causa final. A comunicação precisa e inteligente é interrompida quando os padrões e objetivos da comunicação são reduzidos. Felizmente, existem muitas coisas que interrompem o processo da educação moderna, como a família e a igreja. No entanto, a sociedade moderna afundou num nível muito inferior ao da educação e comunicação observadas pelas gerações anteriores.

A educação moderna perdeu de vista seu verdadeiro objetivo: Equipar o estudante com as ferramentas necessárias para continuar aprendendo. A educação antiga, com quaisquer falhas que possa ter tido, no entanto, manteve este objetivo em vista. A educação moderna, entretanto, acha que oferece maior qualidade de ensino, quando na verdade oferece menor. Majors on the minors². Ensina às crianças múltiplas matérias, porém falha em ensinar a elas como pensar. Elas aprendem todas as coisas exceto aprender.

A situação pode ser comparada a ser como uma “criança robô” ou como tocar muito bem uma música no piano pela memorização, porém nunca ensinar como ler notas musicais e transferir isso para as teclas do piano. Ela pode tocar um música muito bem, mas não saber tocar uma outra música. Ela é totalmente dependente do “sistema de ensino” para aprender mais. Atualmente, as pessoas pensam que devem ir para a escola a fim de aprender tudo e qualquer coisa. O indivíduo autodidata costumava ser admirado. Hoje está desacredito. Se o sistema institucional não o ensinou, então ele não aprendeu.

Um artesão aprende a dominar sua ferramenta primeiro, mas os educadores modernos concluíram que as ferramenta básicas da gramática, lógica e retórica são antiquadas e desnecessárias. Um indivíduo não pode fazer um trabalho adequado sem as ferramentas adequadas. Aí reside grande parte do fracasso da educação moderna. Se as ferramentas são de fato adquiridas, geralmente é incidentalmente. Enquanto a educação clássica se concentra em forjar e dominar essas ferramentas de auto-aprendizado, a educação moderna se concentra unicamente no material a ser aprendido. Quanto mais “moderna” a educação, menos acadêmico o material.

O estudante moderno aprende muitas coisas triviais. O estudante antigo aprendeu como aprender – Trivium.

Com as ferramentas do trivium, o estudante pode aprender qualquer coisa sozinho. Acreditamos ser imperativo  restabelecer o programa do trivium: gramática, lógica e retórica – conhecimento, entendimento e sabedoria como base de nosso currículo.

Harvey & Laurie Bluedorn

O casal é escritor e fundador do blog Trivium Pursuit, também escritor do livro “Ensinando o Trivium” Volume 1 e 2, publicado em lingua portuguesa pela Editora Monergismo.

https://www.triviumpursuit.com/

1. Composta pelo Trivium e o Quadrivium, as artes liberais são o método organizado de ensino herdado da Educação Clássica no período da Idade Média.

2. Expressão do inglês que adota termo de cunho educacional para tratar inapropriadamente algo de menor importância como algo de maior importância.

[ Este post, de autoria de Harvey Bluedorn, foi originalmente publicado pelo Blog Trivum Pursuit. Traduzido por Bruno Philippe e republicado em português mediante autorização. Original: https://www.triviumpursuit.com/articles/what_is_the_trivium.php]
[No texto em português foram realizadas algumas adaptações que não são encontradas no texto original.]