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Posso me irar e não pecar?

por | nov 6, 2019 | Vida Cristã

A pergunta que intitula este breve texto não possui uma resposta fácil tanto em termos de definição teológica quanto em termos de interpretação bíblica. Entretanto, à luz de algumas passagens das Escrituras quero propor uma resposta objetiva e prática à questão.

 

Acredito que o melhor ponto de partida seja olhar para o texto de Efésios 4.26: “Irai-vos e não pequeis (ARA). Sobre este verso preciso pontuar algumas questões:

 

1- Efésios 4.26 deve ser lido à luz de seu próprio contexto – esta afirmação provém do fato de eu acreditar que o verso não é uma citação direta do Salmo 4.4. Muitos estudiosos tentam explicar a ira usando o paralelismo entre os textos, o que considero um erro, pois, os argumentos contextuais do Salmo e de Efésios são diferentes. Enquanto o poeta lida com a tensão da iminência de um ataque militar do seu inimigo, Paulo trata do exercício espiritual do despojamento e do revestimento, no Salmo é recomendado que antes de pecar, o inimigo deveria consultar o coração no travesseiro, sossegar e oferecer sacrifícios de justiça, já em Efésios ao crente é recomendado que resolva seu problema antes de o sol se pôr [explicação desta afirmação na sequência do texto]. Outro argumento é que o apóstolo Paulo não usa qualquer partícula indicativa para citação como “está escrito”. Embora não creia que Efésios 4.26 seja uma citação direta do Salmo 4.4, acredito que os dois textos são importantes para compreensão da ira, por isso, estou propondo que devem ser lidos e interpretados dentro dos seus respectivos contextos e não um à luz do outro.

Efésios 4.22-24 define exercícios práticos para o crente: o despojar-se e o revestir-se para que seu modo de pensar seja modificado. Nos versos 25 a 32 o apóstolo Paulo dá exemplos práticos de despojamento e revestimento: “deixando a mentira, fale cada um a verdade” (v.25); “Aquele que furtava não furte mais; antes trabalhe” (v.28); “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação” (v.29).Noutras palavras, elimine algo pecaminoso de sua vida e substitua por uma prática espiritual (cf. vv.31-32). Não seria natural ler o verso 26 da mesma forma? Afinal, do que devo me despojar e do que devo me revestir no referido versículo? Penso que a resposta natural seria: despoje-se da ira e a substitua pelo perdão ou compaixão. Mateus 5.21-24 nos ajuda a entender essa questão. Observem que Jesus afirma que a ira é uma forma de assassinato ao o irmão [uso metafórico, ou seja, uma hipérbole] (v.22). Por essa razão, ele recomenda que aquele que está irado contra o irmão não entregue sua oferta de adoração sem que antes resolva o problema da sua ira (vv.23-24). Um fato importante é que a oferta deveria ser entregue no mesmo dia – na cultura judaica o dia terminava às 18h, ou quando se punha. Nesse sentido, o indivíduo deveria correr e resolver o seu problema antes do pôr do sol e trazer sua oferta ainda naquele dia. Creio que esta foi a razão de Paulo afirmar: “… não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Ef 4.26), ou seja, não se ire, mas se irar, resolva seu problema antes de o sol se pôr, pois assim, poderá repousar tranquilo à noite.

 

2- Em lugar da tradução de Efésios 4.26 supracitada, eu gostaria de propor a seguinte: “Quando forem provocados a ira, não pequem”. Observem que assim sendo o texto não apresenta duas possíveis manifestações pecaminosas como na ARA a qual possibilita irar e cometer outro pecado posterior ou subsequente, mas nesse caso o único pecado em evidência é a própria ira. Noutras palavras, se forem provocados à ira não se irem, pois isto é pecado. Acredito que a construção do grego na frase permite esse tipo de leitura, o que não será justificado aqui para não alongar o texto.

É natural que agora tratemos do Salmo 4.4: “Irai-vos e não pequeis”. Também sobre este texto preciso fazer algumas observações.

 

3- A igualdade dos textos do Salmo 4.4 e de Efésios 4.26 pode ser constatada nas versões em português, contudo, os textos originais – hebraico e grego, respectivamente – nos revelam outra realidade. Isso ocorre em função do tradutor e de sua interpretação e não do texto propriamente dito. Primeiro, porque são duas línguas diferentes;segundo, são contextualmente incompatíveis. O fato de Paulo pronunciar algo similar ao poeta não significa que o apóstolo tivesse intenção de citá-lo, mas apenas um ensino coincidente. Como disse antes, são dois textos importantes para o tema, porém, devem ser interpretados dentro de seus respectivos contextos.

 

4- A ideia não é de ira obscurecida. Novamente o problema reside na tradução, pois, a palavra ira e a maneira como foi colocada sugere um comportamento irrefletido e inconsequente. Primeiro, observe que o verbo hebraico rgz é melhor traduzido por “agitar” ou “tremer” e não “irar”. Segundo, nos versos 2 e 3 Davi reflete sobre a postura de seus inimigos diante dele e nos versos 4b e 5 Davi lhes dá conselhos sobre como eles deveriam se comportar. Noutras palavras, Davi está levando seus inimigos à reflexão sobre o fato de ele [Davi] ser protegido por Deus (v.3).Portanto, qualquer investida do inimigo resultaria em derrota certa. Então, o rei aconselha os inimigos: “Vocês podem ficar agitados ou tremendo, mas não cometam o pecado de me atacar. Antes, reflitam sobre estas questões e aquietem seu coração, ofereçam sacrifícios a Deus e confiem no Senhor” (paráfrase dos versos 4 e 5). Vejam que dessa forma o texto não dá abertura para ira, pelo contrário, a adevrtência de Davi é para que eles controlem seus impulsos.

A essa altura outras duas perguntas podem surgir: (1) A Bíblia fala sobre a ira de Deus; então Deus estaria pecando? (2) E nos dois casos em que Jesus expulsou os mercadores do Templo, o Senhor cometeu o pecado da ira naquelas ocasiões?

 

Sobre a primeira pergunta é preciso entender que a ira de Deus não é o mesmo que impulsos de raiva, mas uma manifestação calculada contra o pecado. Deus é santo e isento de pecado, portanto, quando a Bíblia trata da ira de Deus o faz sempre no sentido de indignação contra a rebeldia ou desobediência a ele próprio, ou seja, ainda que usemos a palavra ira para qualificar esta ação de Deus, seu significado é completamente diferente da ira irrefletida do homem.

 

Sobre a segunda pergunta, acredito que a leitura de João 2.12-25 e Mateus 21.12-17 (cf. Mc 11.15-19; Lc 19.45-48) normalmente são maculadas pelo pressuposto. Quero dizer que mesmo antes de ler o texto, o leitor já imagina cenas de ira e raiva com mesas quebradas e animais e pessoas sendo espancados. Contudo, não é assim que leio o texto, pois entendo que algumas questões são importantes para se compreender o evento: primeiro, se Jesus estivesse provocando algum tipo de tumulto certamente os soldados romanos que vigiavam o público teriam interferido (cf. At 21.27-36), ou seja, toda cena tem que ser visualizada sem essa mentalidade; segundo, quando o texto diz que Jesus pegou chicote de cordas não foi para bater nas pessoas, mas para tocar os animais (cf. Jo 2.15); terceiro, aqueles que tinham pombas, Jesus apenas indicou que saíssem dali, pois, se ele quebrasse as gaiolas e soltasse as pombas, certamente seria difícil recuperá-las.O Senhor certamente não provocaria prejuízos àqueles homens; quarto, no caso de Marcos 11.15 e Mateus 21.12: “… derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas”, o verbo grego katastrepho foi traduzido por derrubou (NVI) e derribou (ARA), mas poderia ser traduzido como “virar” ou “mudar de posição”. Penso que a melhor leitura seria que Jesus virou as mesas para uma posição mais fácil de carregar mudando para o lugar apropriado aos comerciantes; quinto, Jesus não está proibindo o comércio, mas apenas orientando que não deveriam fazê-lo naquele lugar, isto é, no Templo. Em resumo, não consigo imaginar Jesus tomado de ira numa cena de espancamento e falta de educação, mas um homem preocupado com a ordem social e religiosa que a festa exigia.

 

Finalmente, a resposta para a pergunta que intitula o texto é: a única “ira” não pecaminosa é aquela que reflete a indignação contra o pecado, pois creio que somente Deus pode manifestar de maneira pura e plena. Qualquer outra forma de ira sempre será pecado, portanto, não acredito que o homem natural possa se irar e não pecar; para mim toda ira provinda do homem natural é pecaminosa.

Dionatan Cardoso

Casado com Iara D. Cardoso, pai de Arthur e Abner. Pastor da ICE Jardim da Granja em São José dos Campos – SP. Bacharel em Teologia pelo CETEVAP – Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba e pela FATERJ – Faculdade Teológica Evangélica do Rio de Janeiro. Licenciado em Letras com ênfase no inglês pela UNISEB – Universidade de Ribeirão Preto, pólo em São José dos Campos-SP. Mestre em Ministério pelo SBPV – Seminário Bíblico Palavra da Vida em Atibaia-SP. Pós graduando e mestrando em Aconselhamento Bíblico pelo CETEVAP em parceria com Instituto Alef e SEBI – Sociedade de Estudos Bíblicos Interdisciplinares. Compõe a equipe de treinamento da Editora Cristã Evangélica e é coordenador de cursos de graduação no CETEVAP. Associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos – ABCB