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“Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração” (Cl 3.16).

 

É interessante notar como o apóstolo Paulo percebia o ministério da Palavra atuando entre os crentes. No texto acima, ele exorta que a Palavra de Deus reine nas reuniões de adoração da igreja, assim como, a paz deveria reinar nos relacionamentos mútuos entre os irmãos da igreja (cf. Cl 3.15).

Aos romanos ele escreve: “E certo estou, meus irmãos, sim, eu mesmo, a vosso respeito, de que estais possuídos de bondade, cheios de todo o conhecimento, aptos para vos admoestardes uns aos outros” (Rm 15.14). Paulo percebe qualidades entre os romanos que os tornavam aptos para o aconselhamento, que ele chama de “admoestar”.

Em seu caloroso discurso de despedida aos efésios, ele mesmo diz que não deixou de admoestar, com lágrimas a cada um [publicamente e também de casa em casa] (At 20.31; cf. 20 – acréscimo meu) anunciando-lhes todo o desígnio de Deus (v. 27).

Esses são apenas alguns exemplos de como o ministério da Palavra deveria ser o ministério da igreja. De como a prática do aconselhamento descrita pelos termos instruir, aconselhar, admoestar descrevem a prática do aconselhamento no Novo Testamento.

Na verdade, esses e outros termos apresentados no Novo Testamento ajudam na compreensão do que é o aconselhamento bíblico e quais são as responsabilidades da igreja e do conselheiro em relação a esta tarefa. Por isso, na medida que definimos alguns desses termos, tenha em mente que “desde os tempos apostólicos, o aconselhamento tem ocorrido na Igreja como função natural da vida espiritual do corpo” (MACARTHUR & MACK, 2012, p. 21).

 

· Νουθετεω (Nouthetéo)

Esse vocábulo grego aparece oito vezes no NT na forma verbal e apenas três vezes como substantivo. Além de Paulo, Lucas é o único que utiliza o termo (em Atos 20.31) para descrever o ministério de Paulo entre os crentes em Éfeso. Isto demonstra como no ministério de Paulo e, em seus escritos para as igrejas do NT aquilo que chamamos “aconselhamento bíblico” estava em sua mente.

Na LXX (Septuaginta) o verbo aparece apenas em um texto de narrativa, 1Sm 3.13 (“corrigir”, “repreender”), e depois apenas nos textos de sabedoria[1] com o significado de “advertir”, “instruir”, “deixar-se ensinar”, “deixar que alguém lhe conte algo”, “ganhar compreensão”, “entender”; e como substantivo podendo ser traduzido por “advertência”[2].

No discurso de Paulo aos efésios (At 20.17-38) a palavra νουθετων (noutheton) foi usada para destacar o tipo de ministério que Paulo exerceu naquela igreja “lembrando-vos de que, por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um” (At 20.31 – ênfase minha). É interessante notar que a admoestação de Paulo acontecia “publicamente e também de casa em casa” e era acompanhada por ensino – διδασκω (didasko) (At 20.20).

O verbo διδασκω (didasko), ensino, aparece no tempo aoristo indicando que todas as vezes que Paulo anunciava “alguma coisa proveitosa” (v. 20) o fazia ensinando. Assim pode-se concluir que essa era uma prática do apóstolo na igreja de Éfeso: ensino e admoestação.

As mesmas palavras aparecem juntas novamente em Cl 1.28: advertindo a todo homem e ensinando a todo homem” (negrito meu). O ensino deve obter como resultado final o conhecimento adequado a respeito do objeto de estudo, informação clara e intelectual. Enquanto que a advertência deve atingir o homem em suas vontades e afeições[3], levando-o a agir em conformidade com o conhecimento adquirido, reparando ou corrigindo alguma deficiência que precisa ser reconhecida e tratada[4], “a fim de que apresentemos todo o homem perfeito em Cristo” (Cl 1.28). O contraste entre essas palavras revela o propósito da νουθεσια (nouthesia)“efetuar mudança de conduta e personalidade” (ADAMS, 2008, p. 58), e não apenas informar. Assim, percebe-se que as duas palavras são utilizadas juntas, pois servem ao mesmo objetivo – maturidade. 

A palavra se aplica à correção daqueles que são desobedientes na igreja (1Ts 5.12; 2Ts 3.15) e que podem se tornar rebeldes rejeitando a admoestação (Tt 3.10). Uma definição abrangente e contextual foi bem arquitetada por David Powlison:

A partir da palavra grega noutheteo, literalmente “colocar na mente” que significa reprovar ou admoestar ou ensinamento pessoal incisivo. É uma palavra ligada com o levar da verdade específica para se lidar com os detalhes da vida de um indivíduo. Ela está associada ao amor intenso: por exemplo, o “admoestar com lágrimas” de Paulo em Atos 20.31 e seu “vos admoestar como a filhos meus amados” em 1 Coríntios 4.14. Ela serve como uma palavra que resume a edificação verbal: quer um ao outro (“aptos para vos admoestardes uns aos outros”, Rm 15.14) quer sob autoridade pastoral (1Ts 5.12). Ela também resume os aspectos verbais de um pai educando os filhos (i.e., “criai-os na admoestação do Senhor”, Ef 6.4). Noutheteo “anda de mãos dadas” com o ensinamento e a adoração em Colossenses 3.16, reforçando o sentido da palavra como se envolvesse uma aplicação pessoal da verdade de Deus, expressa em humildade, ternura e submissão a Deus (MACARTHUR & MACK, 2012, p. 73).

 

Nesta definição fica clara a ideia de que a advertência ou a exortação realizadas são sempre feitas visando restaurar o aconselhado em amor. A advertência noutética deve sempre ser “motivada pelo amor e profundo interesse, sendo que os clientes [sic] são aconselhados e corrigidos por meios verbais, para seu bem. Naturalmente, o objetivo último é que Deus seja glorificado” (ADAMS, 2008, p. 58).

Assim, a palavra pode ser vista e entendida à luz do NT como uma admoestação, advertência ou exortação verbal, acompanhada de ensino, visando restaurar o indivíduo, levando-o a mudanças específicas e necessárias, a fim de obter mudança de caráter, tornando-o semelhante a Cristo (Cl 1.28).

 

· Παρακαλεω (Parakaléo)

O verbo παρακαλεω aparece 109 vezes no NT, somente na literatura Tiaguina e Joanina não aparece, neste último apenas o adjetivo παρακλητον é encontrado. Nas narrativas de Lucas e nas cartas paulinas encontram-se as maiores ocorrências da palavra.

O termo é composto pela preposição παρα (para), “ao lado de”, e καλεω (kaleo), “chamo” significando literalmente, “chamado para o lado de”. Algumas possíveis traduções encontradas no NT são: “conciliar”, “consolar”, “rogar”, “pedir”, “exortar”, “suplicar” “implorar”, “confortar”, “admoestar”, “recomendar”, “alentar”, “solicitar”.

Esse termo indica que o exercício da exortação não é frio e desprovido de amor, pelo contrário, é um chamado preocupado de alguém interessado na vida de outro a ponto de encorajá-lo a prosseguir. Percebe-se que havia exortação pública (At 14.22; 15.32; 2Tm 4.2) e individual (1Tm 5.1; Tt 2.6), especialmente a que deveria ser realizada por toda a igreja (2Co 13.11; Hb 3.13; 10.25). Para outras passagens em que o uso da palavra pode ser observado, leia: At 11.23; 14.22; 15.32; 16.40; 20.1; 1Co 4.16; 2Co 1.4, 6; 13.11; Ef 6.22; Cl 2.2; 4.8; 1Ts 2.12; 4.1; 10; 5.14; 1Tm 5.1; 2Tm 4.2; Tt 2.6, 15; Hb 3.13; 10.25.

 

· Καταρτιζω (Katartizo)

Esse termo aparece 13 vezes no NT, derivado da palavra artios (cf. 2Tm 3.17). Aparece duas vezes nos sinóticos com significado secular de “consertar” (Mt 4.21; Mc 1.19). Nas outras ocorrências têm o significado de “aperfeiçoar” (2Co 13.9, aqui o substantivo aparece); “corrigir”, “restaurar” (2Co 13.11; Gl 6.1); “reparar”, “colocar num estado apropriado” (1Ts 3.10).

O texto de Gl 6.1, principalmente, define o aconselhamento como uma tarefa de “restaurar” aquele que “deslizou”, “caiu em pecado”, “… [foi] surpreendido nalguma falta…” (Gl 6.1 – acréscimo meu). Paulo se direciona não a um grupo específico de pessoas, mas sim a toda a igreja “Irmãos … vós que sois espirituais”. Os espirituais a quem Paulo se dirige são os salvos, os quais são habitados pelo Espírito Santo[5]. Esse imperativo deve fazer parte da vida da igreja local para o crescimento e ajuste de cada crente à medida que exercem o amor de uns para com os outros (cf. Gl 5.14; 6.1-5).

 

· Παραμυθεομαι (Paramuthéomai)

O termo aparece 4 vezes no NT e em todas as referências tem o sentido de “consolar” (Jo 11.19, 31; 1Ts 2.12; 5.14), apenas uma vez como substantivo (1Co 14.3). A palavra está associada aos termos: noutheteo e parakaleo (1Ts 2.12; 5.14).

Em 1Ts 2.12 Paulo descreve seu ministério entre a jovem igreja de Tessalônica por onde teve uma passagem sucinta, porém muito produtiva. Seu ministério é descrito como pessoal e individual “… como pai a seus filhos, a cada um de vós” (1Ts 2.11). O apóstolo aconselhava os irmãos daquela igreja “exortando” e “consolando” individualmente cada crente, como um pai cuida de seus filhos. Entretanto, em sua carta não restringe essa tarefa apenas aos líderes, como pessoalmente exemplificou, mas, direciona a toda igreja (1Ts 5.14).

O Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento (DITNT) define os usos da palavra da seguinte maneira:

O encorajamento é uma expressão de amor. Juntamente com a participação no Espírito e a simpatia sentida de todo o coração, forma um dos alicerces da vida da igreja, conforme ela vive na esfera de Cristo (Fl 2.1) […] Em resumo, consolar faz parte da atividade missionária do apóstolo [Paulo], e também da vida da jovem igreja [Tessalônica]. É extensivo, do modo pessoal tanto a indivíduos como à igreja. Edifica-os e os estabelece, dá forças aos desanimados, e é uma expressão de amor na esfera de Cristo (COENEN & BROWN, 2000, p. 390).

 

Enfim, a prática do aconselhamento e a igreja são sinérgicas. De fato, o aconselhamento é a igreja. Por isso sua prática nunca foi estranha ou distante de sua realidade, mas sempre uma prática comunitária desenvolvida por aqueles que estão crescendo – “possuídos de bondade, cheios de todo o conhecimento, aptos para vos admoestardes uns aos outros” (Rm 15.14).

 

[1] Ver: LXX Sab. 11.10; 12.2, 26; 16.6; Jó 4.3; 23.15; 30.1; 36.12; 37.14; 38.18.

[2] COENEN, Lothar, BROWN, Colin. Dicionário internacional de teologia do novo testamento. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 2000, p. 766.

[3] COENEN, Lothar, BROWN, Colin. Dicionário internacional de teologia do novo testamento. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 2000, p. 766.

[4] Adams, Jay E.. Conselheiro capaz. São José dos Campos: Fiel, 2008, p. 58.

[5] Ler Gálatas 5.16-23 onde Paulo explica o que significa ser “espiritual”.

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