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Prenúncios da Reforma: O Palco

por | out 29, 2019 | Reforma Protestante

Entenda um pouco mais sobre o contexto que deu base para a Reforma Protestante.

OS PREPARATIVOS

O poderio absoluto do papado estava bem representado na figura do papa Bonifácio VIII (Benedetto Gaetani), no Século XIV, o ápice da Escolástica.

No ano 1300, por ocasião do novo centenário da morte de Cristo, o imponente pontífice, por meio da bula Antiquorum Fide Relatio, promulgou um ano especial em que haveria indulgência com perdão pleno aos fiéis que comparecessem a Roma, especificamente na Basílica de São Pedro. Esta ação conferiu aos cofres romanos uma grande monetização oriunda das multidões em busca de perdão e fuga de seus familiares da ameaça do purgatório.

Bonifácio representava uma longa linhagem de papas que reinaram, não somente como líderes religiosos, mas principalmente como líderes políticos absolutos de um império unificado pela fé católica romana, sem que ninguém ousasse questionar sua autoridade.

O período de estabilidade nesta Europa unificada, tanto cultural quanto economicamente, vivenciada no início da Baixa Idade Média, começava a vislumbrar os ruídos do tumultuado Século XIV, através da mudança de uma Europa feudal para a monetarização do mercado, outrora agrícola e da ascensão da nova classe burguesa. Eram as primeiras marcas do Renascentismo aflorando.

Neste contexto, o papa Bonifácio encontraria dois adversários à altura de seu poderio.

UMA AFRONTA AO PAPA

Devido suas políticas expansionistas, Inglaterra e França viviam um período de conflito desencadeado de uma disputa pelo território de Gasconha (território no sudoeste da França que estava sob domínio inglês). Para sustentar as campanhas que eram realizadas, ambos os monarcas, Filipe, O Belo, da França e Eduardo I da Inglaterra, encontrou uma solução em comum: A tributação das atividades clericais em seus respectivos territórios, o que claramente foi entendido como uma ofensa ao papado.

Bonifácio, ressentido, entra então em uma disputa contra os monarcas. Entre medidas de retaliação do papado, como a bula Clericis laicos, e os embargos e ameaças jurídicas dos monarcas, Bonifácio cede a pressão e concede o pagamento das taxas, embora que tempos depois, voltaria atrás em sua palavra. Nunca se havia conjecturado uma afronta a Roma desde a consolidação do papado e tal fato marcou o início da dissipação da figura do “papa absoluto”.

Posteriormente, Bonifácio, entendendo o campo civil como uma extensão da autoridade que o papa deveria exercer, emite a bula Unam sanctam, apoiado em textos como Mateus 28:18. Este documento, que foi a mais extrema declaração da autoridade papal, vinculava a salvação à obediência ao papado, bem como a sujeição das autoridades temporais a este. A bula conferia ao papa o poder de instituir ou destituir reis e príncipes. Foi o estopim para que Felipe reagisse com medidas drásticas. Aliando-se a um jurista chamado Guilherme Nogaret, e apoiado por clérigos franceses, o imperador iniciou uma jornada para depor Bonifácio XIII por heresia e ilegitimidade.

O pontífice foi surpreendido em Anagni (sua terra natal) pelas tropas de Nogaret, que o manteve preso por alguns dias, sendo libertado depois pelo próprio povo da cidade. Contudo, em seus 86 anos, já debilitado e com uma reputação impopular, o papa morre semanas depois do episódio de Anagni.

Em 1305, o Colégio de Cardeais ascende ao “trono de Pedro” o papa francês Clemente V. Sua ascensão marcou o evento histórico que ficou conhecido como o “Cativeiro Babilônico” do papado.

O CATIVEIRO

Clemente V, juntamente com seus sucessores (todos franceses), preferiram se estabelecer em Avignon na França ao invés da gloriosa Roma, o que provocou ressentimento na Alemanha e indagações por parte de Luís da Baviera, que questionava o papado e a hierarquia católica, argumentando que o “santo padre” deveria ser um agente a serviço da comunidade e não uma figura coberta por riquezas e glória.

Este papado em Avignon, que durou 72 anos, foi duramente criticado na época por seus excessos em relação a captação desenfreada de recursos por meio da venda de indulgências, motivada pela crise financeira do Estado Clérigo. As indulgências eram vendidas sob ameaças do fogo infernal e excomungação.

Depois de uma sucessão de cinco papas vivendo em solo francês, o retorno do papado a Roma só aconteceu com Gregório XI, que faleceria pouco depois de seu retorno. Gregório XI deu lugar a um pontífice de personalidade dúbia e com atitudes muitas vezes despóticas: Urbano VI.

Em agosto de 1378, os cardeais, parte de origem francesa, organizaram um conclave para depor Urbano VI, invalidando sua seleção ao pontificado. Houve então uma drástica ruptura. Os cardeais franceses levantaram um novo papa, Clemente VII, que se estabeleceu em Avignon, ao passo que, Urbano VI elegeu um novo Colégio de Cardeais, dando início a outro evento histórico que corroborou para a dissipação da figura papal, o Grande Cisma, com um papa governando em Roma e o outro na França. O imponente papado testemunhava algumas derrotas: A confrontação, inimaginável em outras épocas, de sua autoridade temporal, a mudança geográfica de Roma, símbolo do fundamento apostólico do pontificado, para a França e agora a divisão de poderes papais, com cada papa tendo seu próprio Colégio de Cardeais, conferindo a continuação de ambas as sucessões ao pontificado.

O CISMA

O cenário com dois pontífices era insustentável. Com a proposta de um grande concílio para resolver o problema do Cisma, idealizado por mestres da Universidade de Paris, os cardeais envolvidos com ambos os papas decidiram em 1409, resolver a questão do Grande Cisma por meio do Concílio de Pisa. A resolução do concílio foi a de levantar um terceiro nome, Alexandre V, depondo os outros dois em vigor. O que nenhum cardeal, por mais perspicaz que fosse, poderia prever é que os outros dois papas a serem depostos não acatariam a resolução do concílio, e a Europa passaria a vislumbrar, então, três papas disputando entre si o autêntico pontificado.

A decisão para sanar de vez o problema do Grande Cisma viria em 1414, com o apoio do sacro imperador romano Sigismundo, instaurando o Concílio de Constança. Desta vez, composta não apenas de clérigos, mas também de acadêmicos representantes das nações alemãs, inglesa, italiana, francesa e espanhola.

Tanto o Concílio de Pisa, como o Concílio de Constança, colocava em cheque a autoridade papal ao qual era outorgado, tão somente, o direito de convocar concílios. O papado então sofria uma nova derrota. A figura de um papa absoluto, embora ainda com muito prestígio e poder, se via vilipendiada diante da ruptura e do poder oriundo dos concílios.

O PALCO

Três anos após o início do concílio em Constança, finalmente os três papas foram depostos, sendo que Gregório XII abdicou de seu cargo. A decisão deu lugar a um novo pontífice, Martinho V. Após séculos de poder absoluto do papa, Constança decretava a autoridade dos concílios sobre o papado. Não obstante o movimento desencadeado por este concílio não fora o suficiente para deter os excessos em Roma, estava marcado na história o início da dissipação do poder hegemônico da igreja católica. Aos poucos o pontificado veria, não apenas seus poderes temporais exauridos, mas também a perda do controle sobre as artes, cultura, economia e todas as outras mudanças que a Renascença traria ao mundo. Estava sendo montado o palco para a Reforma Protestante.

Bruno Philippe

Editor e Gestor de Conteúdo do Ministério LER.